BUDISMO CHAN

Bodhidharma


O Chan, ramo do budismo chinês que originou o Zen no Japão, foi uma reação contra o formalismo dogmático que havia afastado os fiéis da pureza dos ensinamentos originais de Buda.


A escola bebe da essência revelada no Sutra do Lótus, em que Shakyamuni segura uma flor sem nada dizer e é compreendido apenas por Mahakasyapa: a luz da verdade é “trivial” e pode ser encontrada ao redor e dentro do homem. Este artigo é uma pequena reflexão recortada do imenso caudal do Chan e não trata da análise doutrinária e nem de um de seus traços mais distintivos, a ideia de iluminação repentina ou satori imediato.


O Chan, “pai e mãe” do Zen japonês, é um dos oito ramos do budismo chinês (
Chan, o Tiantai, o Sanlun, o Faxiang, o Lu, o Jingtu, o Huayan e o Mi ) . Seu nome advém da transliteração da palavra sânscrita Dhyana, que significa “pensar em quietude”, “reparar os pensamentos”. A história do Chan está diretamente ligada à história Shaolin. O Templo Shaolin foi construído pelo imperador Xiaowen em 495 DC entre as montanhas Shaoshi e Songsham, província de Henan. O monge indiano Batuo tornou-se seu primeiro abade e ensinou a seus discípulos o Budismo Theravada.

Anos depois, o monge Bodhidharma chegou ao mosteiro e transmitiu o Mahayana (Grande Veículo). Pragmático, Bodhidharma acreditava que a ênfase da prática não deveria recair sobre as escrituras, mas ser prioritariamente uma experiência existencial exercida no dia-a-dia. Os ensinamentos do patriarca foram a semente que fez florescer o ramo Chan do Budismo chinês transmitido oralmente a seus discípulos e sucessores.

Bodhidharma


Depois de Huineng, o sexto patriarca, a tradição passou a ser ensinada a um maior número de pessoas e o Chan foi dividido em vários ramos, dos quais apenas as escolas Linji e Caodong ainda existem. A idade do ouro do Chan no pensamento chinês cobriu cerca de quatrocentos anos (mais ou menos do século VIII ao século XII.

Huineng, 6º Patriarca do Chan


Um dos traços distintivos do Chan é seu afastamento de uma prática ritualizada e canônica. Tanto o legado de Bodhidharma, como a reforma instigada pelos seguidores de Huineng no século VIII, insistem na necessidade do discípulo priorizar a letra viva, as lições da vida, em detrimento da exegese dos textos sagrados e das práticas devocionais. Estar atento ao chamado da natureza e à comunicação entre suas manifestações telúrica, intersubjetiva e do plano espiritual é a forma de percorrer o “Caminho” do Chan. Mas o credenciamento da experiência rotineira como uma via para o sagrado passa necessariamente por eixos bem consolidados na doutrina, como a insistência no autoaperfeiçoamento e na auto-responsabilidade, a integração no fluxo da natureza, o não-julgamento e o exercício da compaixão.

O Chan não acredita que a iluminação advém de algo externo ao mundo e ao próprio individuo (em linguagem cristã, não é adepto da doutrina da graça). Ela é o resultado de um longo processo que inclui erros e acertos, um aprendizado baseado na livre escolha; neste sentido é uma doutrina humanista, pois cabe unicamente ao sujeito ser seu próprio mestre. A pura e simples crença em Buda não vai levar ninguém à iluminação, nada externo virá salvar o homem, a luz está dentro dele, assim como a seu redor.

Um dos traços do Chan é a forma como trata a questão causal. Ele não é determinista ou fatalista, posto que defende o auto-empoderamento e a autodeterminação, mas, assim como os hinduístas, seus adeptos sustentam que os atos, pensamentos e sentimentos são expressões da mente do homem que, necessariamente, provocarão efeitos adiante.

A ideia parece trivial, mas encerra um ponto chave: o de que nossas vidas são uma obra nossa e de mais ninguém; uma ideia que elimina todo sentimento de vitimização e de transferência de responsabilidade por nossa felicidade e futuro. Não importa se ao executarmos ou pensarmos algo – quer seja bom ou mau – isso seja feito de maneira publica ou privada, seus efeitos virão inexoravelmente. O Chan prescreve a autorregulação moral; uma ética altamente sofisticada e profunda. Nosso maior “ativo” é nosso Eu, se ele estiver em harmonia com o Dharma vamos não só conseguir viver sem negatividade, como expandir esse presente à nossa volta. O Dharma para o Chan significa “natureza”. E estar em harmonia com a natureza aqui significa abstrair o véu de maya e entender que os conceitos de bem e mal são forjados por nossa mente. Estar aberto ao fluxo da vida significa estar atento e se comunicar com todas as suas dimensões exteriores, os outros seres e o mundo natural, e interiores buscando a isonomia entre a energia espiritual, mental e física.Entender o corpo como uma parte sagrada de nosso Eu é um grande legado do Chan que, nesse ponto em particular, sofreu uma influência ainda maior do taoismo e do confucionismo, doutrinas menos formais e mais pragmáticas.

O Chan adota uma postura quase amoral e antidogmática em sua relação com o mundo. Não há praticamente resquício de maniqueísmo: o encontro com um homem mau pode trazer sabedoria, um momento de felicidade pode nos impedir de realizar o ato justo. É também uma doutrina radicalmente iconoclasta; muitas correntes e mestres – em especial nos séculos VIII e IX – chegaram a pregar uma rejeição completa do Buda e dos ensinamentos e estimulavam a critica a seus próprios preceitos: “Se uma pessoa [de tanto meditar] fica com a mente vazia, não vale a pena falar com essa pessoa”, costumava dizer um mestre do século VIII.

Ao contrario de outras religiões que pregam que a sabedoria está no além, para o Chan mundo é um espaço de conhecimento inesgotável que pode estar tanto num sutra como no trabalho de quebrar pedras. A escola prega a integração e a troca amorosa entre o homem e o universo e está centrada no desenvolvimento da virtude; na persistência da prática moral, intelectual e espiritual na vida cotidiana, seja em tempos normais, de alegria ou tristes e confusos.

Mestre Hsu Yun

Um poema Chan do mestre Hsu Yu

O Coração de Buda

Não é preciso ir e vir como as ondas

A mesma água que vem é a que vai

Não é preciso voltar-se para achar a água

Quando ela flui a seu redor em todas as direções

O coração de Buda e as pessoas do mundo

Onde está a diferença


Fonte : Artigo Publicado na Obvios.org. (Ordem no Ruído. Chan, o Dharma da Natureza.

Cronologia histórica

 Cronologia histórica sucinta do Budismo

6º Século a.E.C1.

  • Vida de Siddharta Gautama, o Buda histórico (563-483 a.E.C.)2.

5º Século a.E.C.

  • Primeiro Concílio Budista em Rajagrha (483 a.E.C.).

4º Século a.E.C.

  • Segundo Concílio Budista em Vaishali (383 a.E.C.).
  • Concílio Budista não canônico em Pataliputra (c. 367 a.E.C.).
  • Início de divisão das tradições budistas.

3º Século a.E.C.

  • Reinado do Imperador indiano, o Rei Ashoka (272-231 a.E.C.).
  • Terceiro Concílio Budista em Pataliputra (250 a.E.C.).
  • Mahinda, missionário do Rei Ashoka converte o Sri Lanka (247 a.E.C.).

2º Século a.E.C.

  • Início do Budismo Maaiana (c. 200 a.E.C.).
  • Composição da literatura do Prajñaparamita.

1º Século a. E.C.

  • Compilação do cânone páli no Sri Lanka (25-17 a.E.C.).

1º Século E.C3.

  • Reinado de Kanishka na Índia.
  • Quarto Concílio Budista na Caxemira.
  • Composição do Sutra Lótus e outros textos budistas.
  • O budismo chega à Ásia Central e China.

2º Século E.C.

  • Período do Filósofo Budista indiano, Nagarjuna.

3º Século E.C.

  • Expansão do budismo até Burma, Camboja, Laos, Vietnã e Indonésia.

4º Século E.C.

  • Período dos filósofos budistas indianos, Asanga e Vasubandhu.
  • Desenvolvimento do Budismo Vajrayana na Índia.
  • Traduções de textos budistas para o chinês por Kumarajiva (344-413), por Huiyuan (334-416) e outros.
  • O budismo chega à Coreia em 372.

5º Século E.C.

  • Fundação da Universidade Nalanda na Índia.
  • Período do filósofo budista, Buddhaghosa no Sri Lanka.
  • O monge peregrino chinês Faxian (c.337-c.418) visita a Índia.

6º Século E.C.

  • O monge indiano Bodhidharma chega à China (c.520).
  • Início da era de ouro do Budismo Chinês à época da Dinastia Chinesa Sui (589-617).

7º Século E.C.

  • À época da Dinastia Chinesa Tang (618-906), o budismo se estabelece no Tibete (c.650).
  • O monge peregrino chinês Xuanzang visita a Índia (629-645).

8º Século E.C.

  • À época do Período Nara na história do Japão (710-784) desenvolvem-se as escolas acadêmicas:
  • Jojitsu, Kusha, Sanron, Hossô, Ritsu e Kengon).
  • Primeiro Monastério Tibetano em bSam-yas.
  • Grande debate entre as escolas de budismo tibetanas e chinesas.
  • Tem início a Escola Ningma do Budismo Tibetano.

9º Século E.C.

  • Período Heian da História Japonesa (794-1185).
  • Surgem no Japão as Escolas Tiantai, fundada por Saichô [767-822] e Shingon, fundada por Kukai [774-835].
  • Grande repressão ao budismo na China (845).

10º Século E.C.

  • Primeira impressão do Cânone Budista Chinês (983), conhecido como a Edição de Szechuan.

11º Século E.C.

  • O erudito monge indiano Atisha (982-1054) chega ao Tibete (1042).
  • O iogue Marpa (1012-1097) dá início à Escola Kagyu do Budismo Tibetano.
  • Milarepa torna-se o maior e mais popular santo do Budismo Tibetano.
  • Teve início a Escola Shakya de Budismo Tibetano.
  • O Budismo Teravada refloresce no Sri Lanka e em Burma.
  • O budismo declina na Índia.

12º Século E.C.

  • O Budismo Teravada firma-se em Burma.
  • Período Kamakura da história japonesa (1192-1338).
  • Honen (1133-1212) funda a Escola Terra Pura do Budismo Japonês.
  • Eisai (1141-1215) funda a Escola Zen Rinzai do Budismo Japonês.

13º Século E.C.

  • A Universidade de Nalanda na Índia é destruída (c. 1200).
  • Shiran (1173-1263) funda a Verdadeira Escola Terra Pura do Budismo Japonês.
  • Dogen (1200-1253) funda a Escola Soto Zen do Budismo Japonês.
  • Nichiren (1222-1282) funda a Escola Nichiren do Budismo Japonês.
  • Os mongóis são convertidos ao Budismo Vajrayana.

14º Século E.C.

  • Bu-stön reúne e edita o Cânone Budista Tibetano.
  • O Budismo Teravada estabelece-se na Tailândia tornando-se a religião do Estado em 1360.
  • O Laos e o Camboja tornam-se países Teravadas.
  • Tsonkhapa (1357-1419) inicia a Tradição Gelug do Budismo Tibetano.

15º Século E.C.

  • Tem início a linhagem dos Dalai Lama no Budismo Tibetano.

16º Século E.C.

  • O líder tibetano Gelugpa recebe do Rei Mongol Altan Khan o título de “Dalai” ( 1578).
  • O “Grande Quinto” Dalai Lama reúne-se com o Imperador Shunzhi da Dinastia Qing, perto de Pequim.

17º Século E.C.

  • Controle do Budismo Japonês por parte do Xogunato Tokugawa (1603-1867).

18º Século E.C.

  • Ocupação colonial do Sri Lanka, de Burma, Laos, Camboja e Vietnã.

19º Século E.C.

  • A Restauração Meiji na história japonesa (1868) marca o fim do governo militar.
  • Novas seitas começam a emergir no Budismo Japonês.
  • Quinto Grande Concílio Budista em Mandalay em Mianmar (antiga Birmânia).

20º Século E.C.

  • A edição chinesa do Cânone Taisho Shinshu Daizokyo é impressa em Tóquio (1924-1929).
  • O Comunismo reprime e controla o Budismo Tibetano (1950-    ).
  • Criação do World Fellowship of Buddhists (1952).
  • Sexto Grande Concílio Budista em Rangoon, Burma (1954-1956).
  • O Dalai Lama deixa o Tibete refugiando-se na Índia (1959).
  • O Budismo chega ao Ocidente.

Extraído do Historical Dictionary of Buddhism, Charles S. Prebish, First Edition, Delhi 1995.

1. a.E.C.: abreviação da expressão “antes da Era Comum”, equivalente a “antes de Cristo” (a.C.), usada preferencialmente pelos povos não cristãos.

2. Data de nascimento do Buda: Durante muitos anos e sobretudo devido à influência da ortodoxia Teravada sobre os acadêmicos ocidentais, o ano de 563 a.E.C. foi aceito como a data de nascimento do Buda. Isso se baseava nas antigas crônicas do Sri Lanka (MahavamsaChuvamsa Dipavamsa). Uma segunda tradição, originária do continente indiano, situa o nascimento cerca de cem anos mais tarde, por volta de 450 a.E.C. Investigações recentes, baseadas no Dipavamsa sugerem que muito provavelmente ele tenha nascido em 485 a.E.C.

3. E.C.: Era comum. Ver a.E.C.